domingo, 14 de dezembro de 2008

Sobre Minolta


Os cabelos estavam mais revoltos que o normal - talvez fosse uma manifestação de seu atual comportamento. Comentários de outrém e de outrora diziam que as curvas e ondulações retratavam seus enlaces afetivos, veja você.

Os olhos também mereciam atenção especial. Não somente a mescla do tom castanho e do verde desbotado que enigmatizavam; e sim o que eles refletiam.

É isso, a dupla perfeita para uma dúvida permanente - seus olhos e seus cabelos.

A começar pelos olhos. Hoje, especialmente hoje, suscitam interrogações, atrevimento e dúvida.
A tonalidade castanha, por si só, já é um sinônimo de mistérios, remete à águas turvas e inebriantes. O pigmento verde que também compõe o olhar dá a falsa impressão de uma calmaria.

Ah, os cabelos!!!

Estes sim são meus preferidos. Os que ostentam ondas nunca foram os alvos de minha predileção.,mas os de Minolta me corromperam. Não eram só ondas e curvas, eram mais que isso. Os fios traziam um não-sei-quê que prendiam minha atenção, olhar e pensamento. Eu poderia ficar longos minutos acariciando estes cabelos, não só acariciando, pensando também. Eles tinham esse efeito sobre mim.

A descrição ocular: eram ondas longas e desconexas, de um só tom - preto. A moldura perfeita para os olhos de águas turvas e também calmas.

Refletiam o comportamento?

- Sim!!!

Especialmente no dia em que os observei com atenção, era o retrato fiel de seu temperamento. Minolta estava envolvida somente com seus pensamentos, tinha passado o dia assim. Como resultado de tais reflexões eis que surge a Minolta livre.

Liberdade desfigurada porque algo a prende, algo talvez intenso, talvez sincero, talvez dúbio.

A contemplação dos olhos turvos e calmos não me ofereceu meios para minha indagação sobre Minolta.



Foto: site o globo

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O logro


A garoa torna a visão embasada, a paisagem fica distorcida, quase que abstrata.
Enquanto a paisagem parece dançar, o pensamento vai ao longe.

Algo diz fique aqui.
Minolta sente frio; frio não, calafrio...
Enquanto a mão sobe, o medo vai descendo pela face e espinha.

Enfim somente a luz de uma vela e a fumaça de um incenso no ambiente.
Não vê, apenas sente o toque de Noah.
Os toques se revezam com o líquido entorpecente.

Logo as frases ficam hábeis e soltas,
Os pés fazem círculos e o corpo, agora na horizontal, rodopia.
Logo, o vento rompe a cortina e a coberta se faz necessária.

Noah pergunta:
- E Joshua?
Minolta desconversa.


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E a pomba vôou


Cansou...

bochechou,
se enfezou
também relevou.
E, por fim, a pomba vôou...

Cansa-se de olhar e ele não vibrar,

nem dar sinal de vida,
nem uma ânsia, apelo ou vontade qualquer...

Surge a ira quando o vento envolve um corpo só...

Ausência: o triiiiiiiiiim, triiiiiiiiiiiim que ficou no vácuo

leva ao copo, a outro copo e mais um copo
leva aos papos inebriantes
E às pernas que se envolvem sob a neblina de uma noite

Tons bréus vistos pelas janelas entreabertas
Tons que espiam a pombinha
E que substituem o ser único pelos

"EUS" e "MEUS".

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Apenas Trevisan....


"Só a obra interessa.O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas.Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever mil novos contos, a vida inteira é curta.Uma história nunca termina. Ela continua depois de você.Um escritor nunca se realiza. A obra é sempre inferior aos sonhos. Fazendo as contas percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada. O melhor conto só se escreve com tua mão torta, teu avesso, teu coração danado. Todas as histórias, a mesma história, uma nova história.O conto não tem mais fim senão começo. Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete."


Fonte original: Gazeta do Povo

CÂNTICOS DE SULAMITA.

Cantar 1

Se você não me agarrar todinha
aqui agora mesmo
só me resta morrer

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

estou certa perdidamente certa
se não me der uns bofetões estalados
não morder meus lábios
não me xingar de puta
já já hei de morrer

bata morda xingue por favor
morrerei querido morrerei
se você não deslizar a mão direita
sob a minha calcinha
murmurando gentilmente palavras porcas
sem dúvida hei de morrer

também certa a minha morte
se você não acariciar o meu púbis de Vênus
com o terceiro quirodáctilo
já caio morta de costas
defuntinha
toda morta de morte matada

morrerei gemendo chorando se você titilar a pérola na concha bivalve
morrerei na fogueira aos gritos
se não o fizer

amado meu escuta
se você não me ninar com cafuné
me fungar no cangote
mordiscar as bochechas da nalgame lamber o mindinho do pé esquerdo
juro que hei de morrer
certo é o meu fim

te peço te suplico
meu macho meu rei meu cafetão
eu faço tudo o que você mandar
até o que a putinha de rua tem vergonha

eu fico toda nua
de joelho descabelada na tua cama
eu fico bem rampeira
ao gazeio da tua flauta de mel
eu fico toda louca
aos golpes certeiros do teu ferrão de fogo
ereto duro mortal

ó meu santinho meu puto meu bem-querido
se você não me estuprar
agora agorinha mesmo
sem falta hei de morrer

se não me currar
em todas as posições indecentes
desde o cabelo até a unha do pé
taradão como só vocêé certo que faleci me finei
todinha morta

se não me crucificar
entre beijos orgasmos tabefes
só me cabe morrer
minha morte é fatal
de sete mortes morrida
mortinha de amor é Sulamita

Cantar 2

Ó não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderiase você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só para você?

maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua

não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego

como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados

é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Saro
morvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?

Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar

oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços

me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada

sim bem-querido meu
sou putinha feita pra te servir
me abuse desfrute se refocile

quero sim apanhar de chicotinho
obedecer a ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?

me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?

quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente

como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?

ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas

desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubincundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes

vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à portao meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce nesse copo d'água

eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou?

sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água viva
sou rameira tua ramperia Sulamital
írio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só

Dalton Trevisan

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Nós no 'lado de baixo do Equador'

Respiras que eu suspiro...

Me afoga e eu te envolvo
Me sobrepõe que eu te entorpeço
Me marca e eu te mordo

Me cala que eu te entrelaço
Me instiga e eu te provoco
Me despe que eu te exponho

Me ruboriza e eu te canso
Me toca que eu te arranho
Me deixa por baixo e eu te lambuzo

E me aquece que eu te assanho ...



Imagem: Blue woman - Isarawin


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Uma melodia a dois


Seja sob um som meio MPB, um samba, uma paródia ou iê-iê-iê
Os corpos continuam fazendo música.
Música nas faces, nucas e ventres.

Um fim de semana passou, outro se concluiu
E os lados opostos que se completam
Continuam em harmonia.

Os olhares e as divagações são, invariavelmente, interessantes.
Os pensamentos e pernas se entrelaçam.
E simples mortais deixam-se envolver.

Sentem o vento e a sensação de liberdade
Dividem o quadro com as nuances que queimam.
Se refugiam na oportuna aventura sensorial.

Ouve-se os primeiros acordes perto do ouvido
A composição se finda nos lábios
E a melodia se perde ‘no lado de baixo do Equador’.



Imagem: Lasar Segall

Palavras do 'Menino do Largo'


A menina que tece hoje as novas pedras
Traceja no Largo um tecido fino
Coloca na calçada a simplicidade de uma noite
E estende nas palavras o peso dos passos noturno no centro velho
Lá, a menina sente e liberta sua vontade
Consola-se com a música nova
Mesmo estando em velhos casorões do século passado
Alegra-se da vida urbana
Agradece por suas pisadas...
Lá está ela: andando e ao mesmo tempo escrevendo
No tecido qual emana suas palavras.


Por Willy Bortolini Barp/ Imagem: Aninha Toledo

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O swing para consolar....

O negócio é: "ladeira acima".
E sob o som de "Eu caiu no swing pra me consolar" a noite se desenrola.
Os pares de pés são contornados por luzes e boêmios que divagam sobre
suas fundamentações fundamentadas (por que não?!)
Trilhando os paralelepípedos mal colocados eis que surge AOCA,
e ali se protagonizam os lemas:

1° "Não levar marmita para o restaurante
2° Deus protege os boêmios
3° Passar no cartão".

Com o início do ofício...

desce uma
desce duas
desce três!

Surge um
surgem dois
surgem três
Surge a banda!

E as meninas vão 'debanda', afinal,a noite se desenrola sob
o som de um swuing para consolar.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Topa um flerte?

É agora:
Meu pensamento e sua habilidade.
No xadrez conjugal ou sob o flerte intelectual?
Você escolhe!
Ambos são guiados pelo êxtase orgíaco.
A palavra felina vem e enlaça a faceira e solteira menina

A inspiração nasce da neblina agostiana
Neblina gelada e instigante
Que presencia os trocadilhos tácitos e estimulantes.


Imagem: Blog Os Xupacabras

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Distorção em PB


Tempo nublado, céu cinzento, um vento frio envolve os corpos que transitam pelos becos e rua principal. Enquanto alguns apressam seus passos, outros se sentam em cadeiras de bares e botecos.
De repente levanta-se de um estabelecimento localizado na zona central e segue até o apartamento 32.
O frio fica do lado de fora, agora o que envolve é o cheiro de tabaco que guia os pés até um quarto, precariamente, iluminado pela luz do sol.
O aroma sai do cigarro que Mr. ostenta quando olha outra parte do centro da cidade.
- Que cenário insignificante!
- Que coadjuvante insignificante!
Miss pega o que lhe pertence e sai. Vai para outro cômodo e lá descansa seu corpo por alguns minutos. Seu corpo relaxa.
De súbito surgem jornais, copos, bitucas e uma roda.
Alguns estão no círculo cantarolando e observando o infinito enquanto o mundo gira, outros estão sob as cobertas.
Ora as dimensões são multicolorisses, outras em preto e branco.
Começando em acordes atuais, os sons vão até a vanguarda alternativa, pairam sobre ‘os pingos da chuva que molham’ e se declinam na lógica inconsciente de Freud.
É um acontecimento de vida curta e sua
atmosfera fica registrada em PB.
Distorcida, perdida em alguma pasta ou disco, mas em PB.



Imagem retirada do blog Psicotopicos

terça-feira, 15 de julho de 2008

Em vão

Poemas franceses, melodias inglesas, vozes nacionais parecem à mesma coisa.
A letra passa em vão. Falta uma descontinuidade, uma ruptura,uma disparidade, uma falta de sintonia.
Tudo muito previsível, muito certo, muito ensaiado.
Será uma coincidência eu sentir essa monotonia logo agora?

sábado, 5 de julho de 2008

Modulando as freqüências


Será que foi a conversa de ontem
A retrospectiva de anteontem
O figurado tapa na cara
Os trechos inacabados do Godard
As linhas de Thompson
O instrumental de Amélie Poulain
O som de Olhos nos olhos
Ou os passos circundantes?
Mas, eis que surge
A metamorfose de Kafka
Com sua percepção do outro lado da janela
E seu ‘Foda-se você’ pronto para ser dito.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O VAMPIRO

(...)
Como ao baralho ao jogador,

Como à carniça o parasita,
Como à garrafa o bebedor
- Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao vento, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.

Ai de mim! Com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
"Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque à escravidão,

Imbecil! - se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"


Trecho do Poema de Charles Baudelaire

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Parceria e não conveniência


Lá fora está chovendo
E elas chegam juntas
Com cabelos, rostos e corpos molhados.
Chega a loira e as morenas.
Depois dos clicks, qual o caminho?
Todas as coordenadas indicam para o recanto da boêmia.
Lá, de início, seis copos brindam
Logo....
a discussão e criação de conceitos
ganha mais um membro.
As discussões criam o masculismo,
Passam pelos escritos e chegam ao “Amor como rock n’roll”
Em meio aos vivas e aplausos
Desembarca o oitavo membro
Com a missão já determinada: filosofar e zelar pela integridade
E ele?
Ele, com o copo vazio, diz:
Ops!!!!! Eu????


Foto: Graci Muraro

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Em outras palavras: A dicotomia sentimental I

"Só sei que era alguém
Que há muito tempo esteve comigo,
Mas que eu não deveria ter visto,
Que eu não precisava rever,
Porque foi alguém que
Um dia abanou a cabeça
E saiu do meu campo de visão,
Há muito tempo".



Trecho de 'Estorvo' de Chico Buarque.

domingo, 29 de junho de 2008

certo 'Eu'


A questão resultante de:
pensamento,
arrependimento,
devaneio,
desejo,
busca,
caminho platônico,
toque frio,
desejo ardente,
sentimento pertinente,
realidade distorcida,
cama desarrumada,
mágoa alojada,
ligação em meio a oitava rodada,
palavra lançada,
a promessa da conversa na segunda
e do querer que inunda.


JÁ FOI




Já foi uma composição de Adriana Calcanhoto
Uma letra dos Beatles
Uma semelhança com as outras mulheres de Chico
Um acorde dos Rolling Stones
A desarmonia da voz de Janis
Um solo de Jimi Hendrix
O suingue dos Jorges
Uma canção dos Los Hermanos
Uma descrição do Ludov
A inspiração para uma letra do Pearl Jam
Uma declaração do Mundo Livre
Um desabafo de Caetano
E uma confissão de Nando.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Nós


Resultado de:
um sorriso
de idéias semelhantes
de um mundo desconhecido
e de emoções dilacerantes...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Eis a questão



Oi
Tudo bem?
E então....
Viu lá? Já foi? Ou vai depois do almoço?

Fui e já voltei.
mas aquilo lá acho que não vai rolar.

Fica pra próxima???


Imagem: Van Gogh

segunda-feira, 23 de junho de 2008

1h13

Tic-tac....
e o que mais?
A insônia e sua trupe:
O carrossel corriqueiro,
as comparações atemporais,
a suspeita de um 'pequeno-grande coração'
várias direções,
a ausência da estrada de mão única
e o cheiro,
o seu cheiro.

sábado, 21 de junho de 2008

“SÓ QUER ME COMER?"


Vai, isso mesmo!
Disseca meu ser, me engole
Faz-me de osso, lambe, depois morde
Al dente à mesa estou
Suor e nervos, encima do prato
Corta de leve, finca teus dentes na carne
Que te espera
E mastiga bem de leve,
É assim que me vê,
Só quer me comer
Nas suas entranhas me perco,
Divago idéias
Teço tocaia te enalteço e me esqueço
Suor de lamber os dedos
Apetitosa, assim que me chamas?
De sobremesa me abro, escancaro meu ser
Te lambuzo de creme, daquele molhado
Saliva safado
Pode vir que já estou à mesa!”

Créditos:Angel Llanah
http://www.gargantadaserpente.com/

Chico.....Até o fim

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
"inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Como testemunha: "O Carlton Vermelho"


Mas, olha só como é a vida...
Sentada na grama eu estava, estava a olhar o esmo numa tarde ensolarada de sábado.
De repente um homem, aparentando uns 40 anos, se aproxima.
Ele vem um um shorts jeans azul - já castigado pelo tempo -, camiseta branca, ostentando em uma das mãos um lata de Skol e na outra uma carteira de cigarro - Carlton.
Quem diria, era o Sr. Amarante que após alguns segundos, senta-se ao meu lado e inicia uma conversa sobre a tarde, sobre a vida.
Enquanto estamos ali juntos,
compartilhando a mesma visão,
o mesmo ócio,
compartilhando a harmonia entre a experiência de algumas décadas bem vividas com o impulso e instantaneidade de meus vinte e poucos anos,
compartilha-se também mais um aniversário.
O dia 21 de junho fecha os ciclos de 12 meses do Sr. Amarante.
A prosa de sábado continua, ainda sobre a vida e o futebol
E eu ainda me pego, em meio as palavras soltas, observando o protagonista-mor de meus vinte e poucos anos,
me pego observando os seus cabelos cacheados e castanhos,
seus olhos esverdeados
e penso no contraste que as duas personalidades sentadas sob o sol
expressam:
ele - força e certeza
eu - impulso e reparação.
De súbito desperto da trajetória subjetiva e entro fisicamente no enquadramento:
Amarantes e "Carlton Vermelho".

Sob um ócio de 45 minutos

Era somente meu "Eu" com todos os seus adereços e suas camuflagens.
Livre às margens de águas calmas e barrentas.
De repente, os olhos se fecharam
Com as cortinas fechadas naveguei por mares já conhecidos,
Levantei copos já esvaziados,
Imaginei os novos protagonistas de atos por mim já encenados,
Lembrei do preto e branco já conhecidos.
Caminhei pela estrada
E, ironicamente, visualizei o 'por onde andar'.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Em um quarto escuro

Suas bochechas estavam coradas, dominadas pelo rubor.
Os cabelos levemente desgrenhados e molhados de suor.
A alta temperatura dominava seu cúmplice.
O som ambiente envolvia os dois corpos enquanto a vela derretia em um dos quatro cantos.
Foi-se a primeira, a segunda, a terceira.....peça ao chão.
Os pés se entrelaçavam no antes, no durante e no depois.
Por um momento é possível ouvir e sentir a respiração ao pé do ouvido.
Os toques ficam mais fortes, mais marcantes.
As paredes parecem girar,
Cores se misturam e se dissolvem.
O tom azulado da tela vai sumindo,
O negro do cartaz já não se vê,
O prata dos brincos se perde,
As nuances das peles se completam
Surge o vermelho......
Que marca a pele aqui, ali, em todo lugar.
E assim, o enredo termina
“Nos músculos exaustos

Do teu braço (...)
Frouxa,
Murcha,

Farta,
Morta de cansaço...”


Foto: Aline Vila Verde

ONE LITTLE BIRD

ONE LITTLE BIRD voou
Foi pra além-mar
Um recanto longe da deriva
Foi para o porto
Longe das vistas de navegantes bem-aventurados.
ONE LITTLE BIRD caiu uma vez, quando estava sobrevoando
Os picos e montanhas
Levantou, voou, cansou
E mudou...

Descrição ou Fragmento?

Chegou o momento em que as horas, minutos e segundos estão descompassados.
Os sentimentos e emoções estão confusos, brigam entre si.
Essa confusão sai da subjetividade e toma conta de tudo. Monopoliza as palavras, pensamentos e atitudes.
Dói e ao mesmo tempo alivia.
Agora é uma sensação de sufoco, insuficiência, medo e euforia.
Camuflar a realidade é a única solução.
Antes não existiam as regras implacáveis do relógio, dos compromissos da vida, tudo acontecia de acordo com os pensamentos e vontades.
O coração batia conforme o caminhar das mãos, do deslizar dos dedos e lábios.
A intensidade de uma efemeridade, a intensidade do passo inicial.
Para contrastar e fugir desta efemeridade constante que atormenta e enlouquece, aparece a alternativa: entre no jogo do passageiro, do "tudo passa". viva, viva, viva e viva.... Apenas viva e sinta.
Sinta o prazer de um silêncio, do som de um sussurro, do calor das mãos e das lembranças, do líquido quente da saliva - que dá vida ao corpo, sentidos e pulsar - que descompassa corpo e mente e que dá voz aos impulsos, loucuras e fantasias.
Antes, os acontecimentos giravam em torno do Prudence, Jontex e Olla,
Já os últimos, tiveram como companheiros o Concentrix.
Não sei se é Mrs Dalloway, Virgínia Woolf, a Dona da Casa Pré-fabricada ou Eu mesma.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um palco para o prelúdio


Hoje pensei sobre a mesa de bar.
Nenhuma em especial.
Acho até que imaginei uma que nunca avistei.
O pensamento foi até uma mesa de plástico amarelo, palco para uma dose
de sinceridade e devaneio.
Pensei aqui: e se eu estivesse no palco, o que encenaria?
Seria a verdade que não vejo
Ou o prelúdio que criei e recriei?


Imagem: Di Cavalcanti

Passos perdidos no Largo

O primeiro cenário, nessa breve sequência de mudanças, são as ruas de Curitiba que conduzem os passos para o Centro Histórico, o Largo da Ordem.
O lugar já era frequentado. Mas desta vez é diferente.
O vento soprava mais forte e vinha de todos os lados. Seus cachos se desfaziam. Os cabelos desgrenhados cobriam os lábios e os olhos. O cachecol também era levado pelo vento.
Os pés pisavam em paralelepípedos mal colocados. A calçada, assim como toda a arquitetura, era rústica. O ambiente como um todo era um mundo particular cheio de cores vivas que contrastavam com a arte e antiguidade do local.
Mesmo durante a tarde, fazia muito frio.
O primeiro abrigo encontrado pelos pés foi o sebo da Osório. Localizado a poucos passos do palco das emoções.
Enfim sob a atmosfera do Largo.
Parece um dia tipicamente europeu. Pessoas transitando agasalhadas e apressadas pelas ruas e becos. É em meio a estas pessoas que os passos vagos caminham. Sem saber ao certo o que buscar: a sorte, a arte ou um lugar tranqüilo para soltar a fumaça.
O lugar para a fumaça foi facilmente encontrado em uma espécie de arquibancada abandonada. O cenário para a arte é um sebo tradicional do local: o Trovatori; já a sorte, é a guia que trilha o caminho destas horas.



Foto: Tiago Oliveira