Pedaço de prazer/ perdido/ num canto do quarto escuro/ inferno paraíso/ vivo ou morto/ te procuro... (Leminski)
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
(Relato de Jeremy) - O número 9
Foi após um jantar.
Ela: Cabelos castanhos presos em um coque alto, brincos pouco chamativos, maquiagem destacada
em seus olhos, unhas compridas pintadas de vermelho.
Seu corpo, superficialmente, vestia azul escuro - um vestido azul com botões em todo o seu comprimento, meias pretas,
salto protuberante.
Eu: já nem importa.
Me olhava muito, como que pedindo que eu a desvendasse.
Nunca surgiu tão misteriosa e isso me desconsertava. Ela parecia dominar cada segundo.
Falava pouco e tinha a voz, inconsequentemente, macia, contrariando aquele olhar avassalador que me engolia com o consentimento
da minha curiosidade e vontade.
Ela é meu desvio. É a fuga que eu finjo não existir, mas que me marca a cada oportunidade imprevista de nós.
É a vontade de mudar o trajeto em cada fim de dia, de me isolar naquele corpo em meio à falta de mobília,
em meio a almofadas, corredor, cozinha e armários.
Foi a perturbação da minha infância, o desafeto da adolescência, depois a tentação que morou ao lado, agora
a loucura do meu sexo.
Já acordei pensando nela e dei continuidade ao que fantasiei em sonho depois de acordado, já quis dormir logo como tentativa de
não imagina-la, de evitar querer possui-la; uma forma desesperada de tentar manter minha ordem - antes dela sempre bem estabelecida.
Gosto de vê-la chegando, quando atravessa a porta e chama em um tom quase sussurrante o meu nome.
Gosto de sentir meu cheiro na sua pele, de ver as marcar que deixo em seu corpo enquanto ela se veste em frente ao espelho.
Liguei. Estou aqui. Aparece para mim.
Foi aí que ela surgiu envolvida por seu vestido azul, meias pretas e unhas pintadas.
Entrou no meu carro e me ofereceu aquele sorriso que em cada ocasião me passa uma pista diferente.
Descemos as escadas e chegamos ao ambiente principal do restaurante, com aquela luz baixa e candelabros centrais em cada mesa.
Ela quis vinho.
Bebia cada gole suavemente,parecia brincar com a taça cada vez que a levantava.
Uma hora e meia. Foi o tempo que ela levou para decidir que queria me tirar dali.
Chegamos ao número 9.
Aquele cabelo escuro, escorrendo por sua pele clara, pele que de tão clara marcava a cada toque,
a cada pressão de meu corpo, a cada passeio de minha boca.
Me vi suplicante.
Suplicando uma frase, suplicando aquela voz, suplicando uma peça a menos.
Eu suplicava, suplicava, suplicava....
Pedia que viesse mais perto, pedia que viesse pra mim, que ela fosse pra mim.
......E ela
Ela se exibia.
Mostrava as costas nuas e me olhava sobre os ombros, enquanto o vestido caía
e eu a esperava.
Se exibia e me engolia a cada riso que dava enquanto
falsamente submissa ficava de joelhos na minha frente.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Um desvio
Respira comigo.
Respira junto comigo.
Me sente.
Fecha os olhos enquanto sente minha respiração.
Se deixa enquanto eu te contorno.
E....dorme comigo
Vem.
Minha respiração em você.
Fica assim,
Enquanto eu te guardo.
Só vem.
Só fica.
(...)
Me deixe.
Voe.
Se perca de mim.
Aconteça em outros.
E aporte em outro porto.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Último vôo do corvo
sábado, 6 de novembro de 2010
sábado, 23 de outubro de 2010
431
"O nº 431.
Sempre vi. Sempre percebi. Sempre me contornou.
Eram as luzes do 431 que me mostravam a direção".
"Já passei correndo,
atravessei a contragosto, espiei por tentação,
entrei e quis ficar...."
- Estranho. Hoje as luzes não se acenderam, nem as janelas abriram, e, curiosamente,
o filtro está coberto por um pano verde.
- Quem sabe não será uma viagem?
- Pouco provável.
Foi então que madrugou assim, no escuro.
Acordou e buscou algum sinal, algum momento ou resquício de presença.
Andou.
Cabeça sem orgulho e olhar sem alvo.
Passou.
Chutou uma, duas pedras. Olhou sorrateiramente para o lado.
Uma leveza estranha lhe invadiu.
Aqueles olhos já não o espreitam atrás das cortinas azuis.
Já não anda para ser visto. Aquele andar sem explicação e definição
não carrega mais o misto de beleza e elegância.
Cada passo fora de seu portão é agora vazio.
Era o ponto de encontro do seu norte-sul / leste-oeste.
Não tem mais sinais de partida, nem de chegada.
Agora possui uma infância desnuda, uma fuga premeditada e um apego vizinho.
Volta.
Volta, senão esqueço teu rosto.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Mas, não é que é!!!
"As ruas vão mudando,
os edifícios vão sendo destruídos.
Mas continuam inteiros dentro de você."
(Caio Fernando Abreu)
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Amores Risíveis - Milan Kundera
…mas é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem perceber, devemos atuar num outro espetáculo.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
trecho de um 1º capítulo sem título
Sei que estarei presente em muitas linhas, obras, calçadas e cenários.
O corpo foi, mas a presença, indispensavelmente, efêmera se aprofunda no passo trilhado no escuro, no correr desesperado pelas ruas da metrópole, no esvaziar de copo e desaguar do corpo.
Em cada 1/3 de dia, uma nova súplica.
Um novo pedido de direção que se findará daqui a seis dias.
Uma novena?
Um desespero?
Um reconhecimento da fraqueza?
Amanheci o dia assim. Com o sufoco da súplica exigindo passagem.
Exigia seu espaço desde a madrugada.
Eu, atriz, ignorei.
Na primeira parte do dia, cedi.
Da boca, palavras ocas e sem eco, corpo de uma súplica silenciosa.
Silêncio de medo.
Medo de despertar meu passado que dormia ao lado.
Em meio ao desespero suplicante... lágrimas, tardiamente, revigoradas.
Assim foi meu primeiro lapso de consciência naquela manhã.
Horas depois, meu passado se levantou.
Depois de um rápido bocejo e espreguiçar, veio em minha direção. Olhou bem para meus olhos vacilantes e perturbados pela luz da manhã, me abraçou e disse:
- Bom dia!
terça-feira, 6 de abril de 2010
...
"Alguma coisa em mim- e pode chamar de “Amadurecimento”, ou
“Encaretamento”, ou até “Desilusão” , ou “Emburrecimento”,
simplesmente andou, entendeu?"
Caio Fernando Abreu
sábado, 3 de abril de 2010
Meu efêmero que fica - D.M.X
A gente só se olha,
só se enrosca,
só se toca,
só se sente...
A gente se pertence!!!
Ao menos, foi assim naquela hora,
naquele banho,
naquela cama.
A gente se revela!!!
Na cama do número 9,
No grito que não cabe na garganta,
Na vontade escondida em cada gemido.
A gente se esconde!!!
No vidro embasado do box,
no lençol enrolado na cama,
Na luz que se apaga.
A gente se reencontra!!!
No desígnio de cada ligação ao meio-dia,
Em cada passo sem propósito,
No imoral de cada fuga tua.
terça-feira, 30 de março de 2010
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Bilhete (de mim pra você)
Venha...
Me enquadre - como uma objetiva,
me guarde - como uma 3x4
me colecione - como você faz com suas fotografias
(mas, por fim)
me engula - como se fosse um zoom.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Passos e Asas
"Já me perdi em suspiros,
vírgulas e efeitos de linguagem.
Entre...
Aqueles suspiros sufocados,
Aquelas mesmas vírgulas forjadas,
E em efeitos de linguagem fingidos.
Também nos paralelepípedos mal colocados
E em asas desacostumadas".
sábado, 30 de janeiro de 2010
Ser o reflexo de muitas.....
“Não sei se em algum momento cheguei
Achei bonito....me lembrou tarde de sol
“(…) Queria te contar que eu tenho aqui comigo
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Talvez nos próximos e apressados 365 dias
Talvez....
eu me case,
Talvez eu permaneça na esbórnia
Talvez eu fique filosofando ao beber destilados
Talvez eu comece um livro
Talvez volte para capítulos já começados.
Talvez...
Eu adormeça numa gôndola em Veneza,
Talvez pise nos paralelepípedos mal colocados de Lisboa
Talvez deite na grama nas tardes de verão
Talvez comece a beber refrigerante
Talvez aprenda a tocar violão
Talvez...
Eu aprenda a nadar,
Comece a malhar
Aprenda a cozinhar, lavar e passar.
Talvez recupere aqueles 8 quilos.
Talvez eu tenha um filho.
Talvez...
Eu tenha inúmeras intensidades passageiras
Talvez eu deixe de fazer o proibido (ah, tomara que não).
Talvez eu tenha gozos incomparáveis
E diga palavrões impublicáveis.
Talvez...
Eu tenha atitudes pensadas, chatas e equilibradas
Talvez eu aprenda a dançar
Talvez eu ainda tenha cabelos cacheados
Talvez eu pegue um bronzeado
Talvez...
Eu deixe o vento brincar na minha face e corpo
Talvez eu perca o medo de altura
Talvez eu possa acertar o passo
Talvez eu saia do traçado
Talvez...
Eu fique rica e excêntrica
Talvez eu resolva comer beringela
Talvez eu tome porre aos sábados
Talvez eu vá à missa ou a descarregos nos domingos
Talvez...
Eu perdoe pequenas coisas
Talvez eu continue no “8 ou
Talvez eu me dane mais
Talvez eu foda mais
Talvez...
Eu tenha religião ou seja crente
Talvez eu seja uma boa amante
Talvez eu faça análise
Talvez eu abrace mais
Talvez toda a ‘pira’ valha a pena.
Talvez, talvez, talvez...
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
(A pedidos) Minolta em......Sobre um novembro
"Por alguns instantes até esqueci como chegar.
È, já faz um tempo.
Mas, como escrevi: 'dezembro sempre me proporciona uma leveza estranha',
e, me vi voltar às tais linhas.
E; antes de voltar, fui ali.
Ali, vi a indefesa de um sorriso,
Os olhos apertados de euforia,
Passos tão macios e meus.
Parei ao me ver de costas pro mar cinza.
Parei diante de mim exatamente assim, como descrevi acima.
Ah, quase esqueço de citar os cabelos esvoaçantes e a direção dos meus olhos;
Que olhavam além, sobre e profundo.
Meses depois parei diante de mar, mesquinhamente, semelhante.
Céu e a quantidade de pegadas eram outros.
Foi um contraste tão intenso – de cenário, olhos
e pegadas – que já nem sei mais o que era, superficialmente, similar.
No primeiro, os cabelos em várias direções camuflavam um sorriso incontido,
contornavam lábios abertos e acompanhavam dedos dados.
Os pés sentiam a areia fria e, deliciosamente, grudenta.
Neste dia, lembro que vi a areia em outro chinelo.
Já, há pouco tempo, enfim, parei em frente ao mar.
Parei e me deixei.
O cinza também estava, despudoradamente, insistente.
Estava até parecido.
Mas, faltavam certas coisas...
Aquele vento.
O sorriso escondido e incontido.
A areia grudenta e fria.
...e Outros dedos".

