Pedaço de prazer/ perdido/ num canto do quarto escuro/ inferno paraíso/ vivo ou morto/ te procuro... (Leminski)
sábado, 23 de outubro de 2010
431
"O nº 431.
Sempre vi. Sempre percebi. Sempre me contornou.
Eram as luzes do 431 que me mostravam a direção".
"Já passei correndo,
atravessei a contragosto, espiei por tentação,
entrei e quis ficar...."
- Estranho. Hoje as luzes não se acenderam, nem as janelas abriram, e, curiosamente,
o filtro está coberto por um pano verde.
- Quem sabe não será uma viagem?
- Pouco provável.
Foi então que madrugou assim, no escuro.
Acordou e buscou algum sinal, algum momento ou resquício de presença.
Andou.
Cabeça sem orgulho e olhar sem alvo.
Passou.
Chutou uma, duas pedras. Olhou sorrateiramente para o lado.
Uma leveza estranha lhe invadiu.
Aqueles olhos já não o espreitam atrás das cortinas azuis.
Já não anda para ser visto. Aquele andar sem explicação e definição
não carrega mais o misto de beleza e elegância.
Cada passo fora de seu portão é agora vazio.
Era o ponto de encontro do seu norte-sul / leste-oeste.
Não tem mais sinais de partida, nem de chegada.
Agora possui uma infância desnuda, uma fuga premeditada e um apego vizinho.
Volta.
Volta, senão esqueço teu rosto.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Mas, não é que é!!!
"As ruas vão mudando,
os edifícios vão sendo destruídos.
Mas continuam inteiros dentro de você."
(Caio Fernando Abreu)
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Amores Risíveis - Milan Kundera
…mas é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem perceber, devemos atuar num outro espetáculo.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
trecho de um 1º capítulo sem título
Sei que estarei presente em muitas linhas, obras, calçadas e cenários.
O corpo foi, mas a presença, indispensavelmente, efêmera se aprofunda no passo trilhado no escuro, no correr desesperado pelas ruas da metrópole, no esvaziar de copo e desaguar do corpo.
Em cada 1/3 de dia, uma nova súplica.
Um novo pedido de direção que se findará daqui a seis dias.
Uma novena?
Um desespero?
Um reconhecimento da fraqueza?
Amanheci o dia assim. Com o sufoco da súplica exigindo passagem.
Exigia seu espaço desde a madrugada.
Eu, atriz, ignorei.
Na primeira parte do dia, cedi.
Da boca, palavras ocas e sem eco, corpo de uma súplica silenciosa.
Silêncio de medo.
Medo de despertar meu passado que dormia ao lado.
Em meio ao desespero suplicante... lágrimas, tardiamente, revigoradas.
Assim foi meu primeiro lapso de consciência naquela manhã.
Horas depois, meu passado se levantou.
Depois de um rápido bocejo e espreguiçar, veio em minha direção. Olhou bem para meus olhos vacilantes e perturbados pela luz da manhã, me abraçou e disse:
- Bom dia!
terça-feira, 6 de abril de 2010
...
"Alguma coisa em mim- e pode chamar de “Amadurecimento”, ou
“Encaretamento”, ou até “Desilusão” , ou “Emburrecimento”,
simplesmente andou, entendeu?"
Caio Fernando Abreu
sábado, 3 de abril de 2010
Meu efêmero que fica - D.M.X
A gente só se olha,
só se enrosca,
só se toca,
só se sente...
A gente se pertence!!!
Ao menos, foi assim naquela hora,
naquele banho,
naquela cama.
A gente se revela!!!
Na cama do número 9,
No grito que não cabe na garganta,
Na vontade escondida em cada gemido.
A gente se esconde!!!
No vidro embasado do box,
no lençol enrolado na cama,
Na luz que se apaga.
A gente se reencontra!!!
No desígnio de cada ligação ao meio-dia,
Em cada passo sem propósito,
No imoral de cada fuga tua.
terça-feira, 30 de março de 2010
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