quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Entre 4 paredes


Minolta tem uma transparência peculiar.
Gosta de mostrar seus conflitos interiores,
mas apenas de forma torta - como ela mesma define.
Lembrou-se da condição imposta por si mesma após chegar em seu quarto - o número 8 do único albergue da cidade fria e sempre nublada que presenciou sua chegada
há cinco meses.
Seu atual refúgio não é tão novo, mesmo assim, não colaborou para apagar alguns resquícios.
Entre as quatro paredes, Minolta relê a cópia do bilhete de despedida que deixou para Joshua há exatos cinco meses:

" (...)
de súbito minha leveza de espírito (em sua forma física) não caminhará na mesma direção que meus passos, de súbito também não terei o colo que me repousou, os braços que me envolveram, o corpo que se movia em compasso com o meu e os beijos que minha boca acostumou tão fácil a ter. Por fim, fica tudo assim, porque assim foi:
Do acaso a doce ausência do ponto final"
.

Após o suspiro, que marcou o fim de sua leitura, lembrou-se de suas camuflagens e desvios subjetivos. Por fim, fez ecoar no quarto solitário:
- Foi mesmo um 'crime' perfeito?



Foto: azoreanangel.blogs.sapo.pt

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sobre Minolta


Os cabelos estavam mais revoltos que o normal - talvez fosse uma manifestação de seu atual comportamento. Comentários de outrém e de outrora diziam que as curvas e ondulações retratavam seus enlaces afetivos, veja você.

Os olhos também mereciam atenção especial. Não somente a mescla do tom castanho e do verde desbotado que enigmatizavam; e sim o que eles refletiam.

É isso, a dupla perfeita para uma dúvida permanente - seus olhos e seus cabelos.

A começar pelos olhos. Hoje, especialmente hoje, suscitam interrogações, atrevimento e dúvida.
A tonalidade castanha, por si só, já é um sinônimo de mistérios, remete à águas turvas e inebriantes. O pigmento verde que também compõe o olhar dá a falsa impressão de uma calmaria.

Ah, os cabelos!!!

Estes sim são meus preferidos. Os que ostentam ondas nunca foram os alvos de minha predileção.,mas os de Minolta me corromperam. Não eram só ondas e curvas, eram mais que isso. Os fios traziam um não-sei-quê que prendiam minha atenção, olhar e pensamento. Eu poderia ficar longos minutos acariciando estes cabelos, não só acariciando, pensando também. Eles tinham esse efeito sobre mim.

A descrição ocular: eram ondas longas e desconexas, de um só tom - preto. A moldura perfeita para os olhos de águas turvas e também calmas.

Refletiam o comportamento?

- Sim!!!

Especialmente no dia em que os observei com atenção, era o retrato fiel de seu temperamento. Minolta estava envolvida somente com seus pensamentos, tinha passado o dia assim. Como resultado de tais reflexões eis que surge a Minolta livre.

Liberdade desfigurada porque algo a prende, algo talvez intenso, talvez sincero, talvez dúbio.

A contemplação dos olhos turvos e calmos não me ofereceu meios para minha indagação sobre Minolta.



Foto: site o globo

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O logro


A garoa torna a visão embasada, a paisagem fica distorcida, quase que abstrata.
Enquanto a paisagem parece dançar, o pensamento vai ao longe.

Algo diz fique aqui.
Minolta sente frio; frio não, calafrio...
Enquanto a mão sobe, o medo vai descendo pela face e espinha.

Enfim somente a luz de uma vela e a fumaça de um incenso no ambiente.
Não vê, apenas sente o toque de Noah.
Os toques se revezam com o líquido entorpecente.

Logo as frases ficam hábeis e soltas,
Os pés fazem círculos e o corpo, agora na horizontal, rodopia.
Logo, o vento rompe a cortina e a coberta se faz necessária.

Noah pergunta:
- E Joshua?
Minolta desconversa.


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E a pomba vôou


Cansou...

bochechou,
se enfezou
também relevou.
E, por fim, a pomba vôou...

Cansa-se de olhar e ele não vibrar,

nem dar sinal de vida,
nem uma ânsia, apelo ou vontade qualquer...

Surge a ira quando o vento envolve um corpo só...

Ausência: o triiiiiiiiiim, triiiiiiiiiiiim que ficou no vácuo

leva ao copo, a outro copo e mais um copo
leva aos papos inebriantes
E às pernas que se envolvem sob a neblina de uma noite

Tons bréus vistos pelas janelas entreabertas
Tons que espiam a pombinha
E que substituem o ser único pelos

"EUS" e "MEUS".

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Apenas Trevisan....


"Só a obra interessa.O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas.Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever mil novos contos, a vida inteira é curta.Uma história nunca termina. Ela continua depois de você.Um escritor nunca se realiza. A obra é sempre inferior aos sonhos. Fazendo as contas percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada. O melhor conto só se escreve com tua mão torta, teu avesso, teu coração danado. Todas as histórias, a mesma história, uma nova história.O conto não tem mais fim senão começo. Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete."


Fonte original: Gazeta do Povo

CÂNTICOS DE SULAMITA.

Cantar 1

Se você não me agarrar todinha
aqui agora mesmo
só me resta morrer

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

estou certa perdidamente certa
se não me der uns bofetões estalados
não morder meus lábios
não me xingar de puta
já já hei de morrer

bata morda xingue por favor
morrerei querido morrerei
se você não deslizar a mão direita
sob a minha calcinha
murmurando gentilmente palavras porcas
sem dúvida hei de morrer

também certa a minha morte
se você não acariciar o meu púbis de Vênus
com o terceiro quirodáctilo
já caio morta de costas
defuntinha
toda morta de morte matada

morrerei gemendo chorando se você titilar a pérola na concha bivalve
morrerei na fogueira aos gritos
se não o fizer

amado meu escuta
se você não me ninar com cafuné
me fungar no cangote
mordiscar as bochechas da nalgame lamber o mindinho do pé esquerdo
juro que hei de morrer
certo é o meu fim

te peço te suplico
meu macho meu rei meu cafetão
eu faço tudo o que você mandar
até o que a putinha de rua tem vergonha

eu fico toda nua
de joelho descabelada na tua cama
eu fico bem rampeira
ao gazeio da tua flauta de mel
eu fico toda louca
aos golpes certeiros do teu ferrão de fogo
ereto duro mortal

ó meu santinho meu puto meu bem-querido
se você não me estuprar
agora agorinha mesmo
sem falta hei de morrer

se não me currar
em todas as posições indecentes
desde o cabelo até a unha do pé
taradão como só vocêé certo que faleci me finei
todinha morta

se não me crucificar
entre beijos orgasmos tabefes
só me cabe morrer
minha morte é fatal
de sete mortes morrida
mortinha de amor é Sulamita

Cantar 2

Ó não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderiase você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só para você?

maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua

não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego

como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados

é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Saro
morvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?

Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar

oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços

me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada

sim bem-querido meu
sou putinha feita pra te servir
me abuse desfrute se refocile

quero sim apanhar de chicotinho
obedecer a ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?

me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?

quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente

como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?

ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas

desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubincundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes

vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à portao meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce nesse copo d'água

eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou?

sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água viva
sou rameira tua ramperia Sulamital
írio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só

Dalton Trevisan

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Nós no 'lado de baixo do Equador'

Respiras que eu suspiro...

Me afoga e eu te envolvo
Me sobrepõe que eu te entorpeço
Me marca e eu te mordo

Me cala que eu te entrelaço
Me instiga e eu te provoco
Me despe que eu te exponho

Me ruboriza e eu te canso
Me toca que eu te arranho
Me deixa por baixo e eu te lambuzo

E me aquece que eu te assanho ...



Imagem: Blue woman - Isarawin